A grandes franquias que a Sony deixou morrer

 Ao longo de mais de três décadas, a PlayStation construiu um catálogo de propriedades intelectuais que ajudaram a moldar gerações inteiras de jogadores. Mas nem todas estas franquias sobreviveram às decisões estratégicas da Sony Interactive Entertainment. Algumas foram discretamente abandonadas, outras fecharam as portas mesmo com o sucesso comercial ou junto da crítica, e várias foram substituídas por novas prioridades criativas e comerciais.



Estes casos incluem nomes que chegaram a ser nucleares para a identidade da PlayStation, como Killzone, que durante muitos anos foi o principal shooter da marca; Resistance e SOCOM, que ajudaram a introduzir o modo multijogador online no ecossistema da Sony; MotorStorm e WipEout, que funcionaram como montras técnicas e culturais; e séries de mascotes como Jak and Daxter e Sly Cooper, que serviram de base à era PlayStation 2. Também vamos falar de exemplos mais recentes, como o colapso de LittleBigPlanet como plataforma criativa, uma amostra de que este fenómeno não se limita a um passado mais distante.

Este artigo analisa os principais jogos e sagas que, em diferentes alturas, foram indispensáveis para o ecossistema da PlayStation, mas que agora estão mortos ou num estado de total abandono.


Killzone - O “Halo da PlayStation” que perdeu espaço

  • Estado: Abandonado
  • Último jogo: Killzone Shadow Fall (2013)

Killzone foi durante a era PS2 e PS3 a principal tentativa da Sony de competir diretamente com Halo no espaço dos shooters originais. A franquia ficou conhecida pelo seu tom mais sombrio, estética militar pesada e uma narrativa virada para os conflitos políticos e ideológicos.

Embora Killzone 2 e Killzone 3 tenham sido tecnicamente impressionantes e relativamente bem recebidos, a série nunca atingiu o impacto cultural que a Sony queria. Shadow Fall, lançado como título de lançamento para a PS4, foi considerado visualmente competente mas criativamente pouco ambicioso.

A mudança de direção na Guerrilla Games com Horizon Zero Dawn, um enorme sucesso que reinventou o estúdio, foi o principal argumento para enterrar Killzone. Depois disso, Killzone deixou de ser uma prioridade estratégica, tendo sido definitivamente abandonado.

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Resistance - A resposta alternativa aos shooters tradicionais

  • Estado: Abandonado
  • Último jogo principal: Resistance 3 (2011)

Criado pela Insomniac Games, Resistance apareceu como um shooter de ficção científica com a sua própria identidade: uma linha temporal alternativa, armas experimentais e uma forma de combate menos realista.

Durante a era da PS3, foi uma das franquias mais associadas à marca PlayStation, especialmente nos seus primeiros anos. Mas a série sofreu um desgaste rápido, com vendas em declínio e uma falta de evolução entre os vários títulos.

A aquisição da Insomniac pela Sony e o interesse em Spider-Man e Ratchet & Clank deixaram ficar à vista que Resistance já não tinha lugar no portfólio moderno da empresa.

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Uncharted - Concluído por decisão criativa, não por fracasso

  • Estado: Encerrada (intencionalmente)
  • Último jogo principal: Uncharted: The Lost Legacy (2017)

Uncharted foi uma das franquias de maior sucesso na história da PlayStation e tecnicamente não morreu por ter sido um fracasso. A Naughty Dog decidiu terminar o arco narrativo principal, evitando a erosão criativa que afecta muitas séries de longa duração.

Mesmo assim, do ponto de vista do ecossistema, Uncharted deixou de existir como uma franquia ativa, sobrevivendo apenas através de remasters e de um spin-off que não foi continuado. A Sony escolheu não entregar o IP a outro estúdio de forma permanente, ao preferir preservar o legado em vez de o continuar.

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SOCOM - O colapso de um pilar multiplayer tático

  • Estado: Encerrado
  • Último jogo: SOCOM 4 (2011)

Antes de Call of Duty dominar o mercado nas consolas, SOCOM foi um benchmark no multijogador tático online na PlayStation. Foi um dos primeiros jogos a criar fortes comunidades online no ecossistema da Sony.

O problema apareceu quando a franquia tentou adaptar-se a tendências mais arcade, o que alienou o seu público principal. SOCOM 4 foi um fracasso comercial e em termos críticos, o que levou ao encerramento da Zipper Interactive.

A Sony nunca tentou relançar a marca, em vez disso preferiu abandonar completamente o género tático militar.

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MotorStorm – O espetáculo arcade que perdeu relevância

  • Estado: Abandonado
  • Último jogo: MotorStorm RC (2012)

MotorStorm era uma série de corridas arcade caóticas, com pistas destrutíveis e várias classes de veículos. Durante a era PS3, foi uma montra técnica cheia de estilo.

Mas o género de corridas arcade perdeu terreno para os simuladores e as experiências híbridas. Sem um modelo específico de evolução e com o encerramento da Evolution Studios depois de Driveclub, MotorStorm foi esquecido.

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Jak and Daxter - Um ícone da PS2 esquecido

  • Estado: Em hibernação por tempo indeterminado
  • Último jogo original: Jak X: Combat Racing (2005)

Na era da PlayStation, Jak e Daxter foi uma das mascotes da PlayStation. A série tentou amadurecer seguindo as tendências populares da altura, em particular a estrutura de mundo aberto e as missões popularizadas por GTA, mas acabou por perder parte da sua identidade original.

A Naughty Dog mudou completamente o rumo das suas atenções para Uncharted e The Last of Us, e a Sony nunca mostrou qualquer interesse em entregar a propriedade intelectual a outro estúdio. Atualmente, Jak and Daxter sobrevive apenas através de reedições.

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Sly Cooper – O desaparecimento silencioso

  • Estado: Abandonado
  • Último jogo: Sly Cooper: Thieves in Time (2013)

Sly Cooper tinha uma forte presença na PS2 e uma base de fãs leais. Thieves in Time, desenvolvido pela Sanzaru, tentou reavivar a franquia, mas teve uma resposta pouco animadora e vendas pouco significativas.

A Sony nunca explicou oficialmente o seu abandono da série, mas é evidente que a propriedade intelectual já não é vista como comercialmente relevante num mercado orientado para jogos de grande orçamento e realismo cinematográfico.

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WipEout – Um legado sacrificado pela reestruturação

  • Estado: Encerrado
  • Último jogo novo: WipEout Omega Collection (2017 – remaster)

WipEout não era apenas um jogo de corridas futurista, era parte da personalidade cultural da PlayStation, especialmente na Europa. O encerramento do Sony Studio Liverpool em 2012 selou o destino da franquia.

Mesmo com o carinho mostrado pelos remasters, a Sony nunca aprovou um novo título original, dando a entender que o valor histórico da propriedade intelectual já não justificava o investimento criativo.

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LittleBigPlanet

  • Estado: Essencialmente morto
  • Último jogo principal: LittleBigPlanet 3 (2014)

Apesar de Sackboy: A Big Adventure existir, trata-se de uma rutura total com o conceito original. LittleBigPlanet como plataforma de criação de comunidades foi abandonado, que culminou com o encerramento de servidores e a eliminação dos conteúdos.

A Sony deixou morrer uma das suas ideias mais criativas, possivelmente porque não conseguiu rentabilizá-la de forma sustentável no atual mercado.

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MediEvil - Revivida e novamente esquecida

  • Estado: Abandonado
  • Último lançamento: MediEvil (Remake, 2019)

MediEvil foi uma das mascotes originais da PlayStation e regressou com um remake tecnicamente competente mas pouco ambicioso. O projeto funcionou mais como um teste de mercado do que como um verdadeiro relançamento da franquia.

A ausência de uma sequela ou de um plano a longo prazo indica que a Sony não vê valor estratégico suficiente para reinvestir. O resultado é um IP que mais uma vez foi arquivado, apesar do seu peso histórico.

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Bloodborne - Um caso fora do padrão, mas sintomático

  • Estado: Em hibernação inexplicada
  • Último jogo: Bloodborne (2015)

Bloodborne é um caso único: um exclusivo aplaudido, influente e ainda extremamente importante do ponto de vista cultural. No entanto, nunca recebeu sequelas, actualizações técnicas nativas para as novas consolas ou mesmo uma mensagem direta sobre o seu futuro.

A dependência criativa da FromSoftware, que nunca foi adquirida pela Sony, limita o controlo direto do IP. Mesmo assim o silêncio arrastado leva a acreditar que Bloodborne não é uma prioridade estratégica, mesmo com o interesse permanente dos jogadores.

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Days Gone – Morto apesar de vendas sólidas

  • Estado: Encerrado
  • Último jogo: Days Gone (2019)

Days Gone não foi um fracasso comercial, mas teve um acolhimento pouco favorável dos críticos e problemas técnicos no lançamento. Internamente a Sony considerou que a relação custo-benefício de uma sequela não justificava o investimento.

Este caso expõe uma mudança clara na política da empresa: as vendas fortes já não são suficientes se o jogo não se tornar num fenómeno crítico e cultural. O encerramento da franquia mostra uma reduzida tolerância ao risco criativo.

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Knack – O símbolo de uma filosofia abandonada

  • Estado: Abandonado
  • Último jogo: Knack II (2017)

Knack representava uma PlayStation mais acessível, orientada para jogos familiares e de orçamento médio. Tirando as melhorias importantes que a sequela trouxe, a franquia nunca conseguiu livrar-se da sua reputação inicial desfavorável.

Com a reorientação da Sony para produções premium, Knack tornou-se incompatível com a identidade moderna da marca.

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The Order: 1886 – Uma aposta falhada, sem segunda oportunidade

  • Estado: Encerrado
  • Último jogo: The Order: 1886 (2015)

The Order foi uma experiência visualmente impressionante, mas estruturalmente limitada. Criticado pela sua curta duração e falta de profundidade na jogabilidade.

Mesmo com o potencial do universo criado, a Sony preferiu evitar uma sequela que pudesse corrigir estes problemas, optando por absorver a perda e seguir em frente. É um exemplo claro de um IP descartado depois de um único erro.

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Driveclub – Um sucesso tardio que chegou demasiado tarde

  • Estado: Encerrado
  • Último jogo: Driveclub (2014)

Driveclub teve um lançamento atribulado, mas acabou por se tornar num dos jogos de corridas mais adorados da PlayStation 4. Mas os danos iniciais foram suficientes para levar ao encerramento da Evolution Studios.

Apesar de Driveclub ter recuperado alguma da sua reputação depois de um lançamento problemático, a Sony decidiu não continuar a franquia ou investir numa sequela, encerrando-a definitivamente.

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Infamous – Superpoderes, escolhas e abandono

  • Estado: Abandonado
  • Último jogo principal: Infamous Second Son (2014)
  • Spin-off relevante: Infamous First Light (2014)

A série Infamous, criada pela Sucker Punch, notabilizou-se por combinar superpoderes urbanos, escolhas morais e um mundo aberto. Começou na PS3 com Infamous (2009), seguido de Infamous 2 (2011) e do spin-off Festival of Blood (2011). Na PS4, Infamous Second Son veio reforçar a narrativa principal de Delsin Rowe, ao passo que Infamous First Light explorou a história de Fetch, com conteúdos adicionais sem alterar a linha principal da saga.

Infelizmente, a série não recebeu novos jogos. A Sucker Punch concentrou-se inteiramente em Ghost of Tsushima, e deixou Infamous parado indefinidamente. Isto mostra como até IPs muito apreciados podem ser abandonados quando não estão alinhados com as novas prioridades internas da Sony.

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The Getaway – O crime britânico que ficou pelo caminho

  • Estado: Abandonado
  • Último jogo: The Getaway: Black Monday (2004)

The Getaway foi uma tentativa do Sony London Studio de criar uma experiência cinematográfica e realista de crime em Londres, competindo com a popularidade de jogos como GTA. A série ganhou relevo pelo seu pormenor urbano e uma narrativa adulta, mas não conseguiu vendas suficientemente significativas para justificar uma nova versão.

O conceito continuou a ser interessante, mas a Sony nunca deu continuidade à franquia. Hoje em dia, The Getaway é recordado como uma experiência ambiciosa que não teve futuro, exemplo da tendência da PlayStation para abandonar os IPs que não cumprem determinados critérios comerciais.

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This Is Football – Fora de jogo

  • Estado: Abandonado
  • Último jogo: This Is Football 2005 (PS2)

Esta série de futebol foi uma das primeiras séries de futebol exclusivas para a PlayStation, uma alternativa aos grandes nomes da altura, como FIFA e Pro Evolution Soccer. A série combinava licenças limitadas, estilo arcada e algum realismo, tendo conseguido atrair uma base de fãs fiéis na PS2.

Mesmo depois de ter sido bem recebido e de terem sido lançadas várias edições, a Sony não continuou a investir na franquia depois de 2005. O foco do mercado em FIFA e PES, juntamente com as alterações estratégicas nos estúdios internos, levou a que This Is Football fosse esquecido, tornando-se num exemplo clássico de um IP que desapareceu apesar do seu potencial.

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Conclusão: uma mudança de identidade estratégica

O desaparecimento destas franquias não é um acidente. Trata-se de uma mudança estrutural na estratégia da Sony, que passou de uma carteira diversificada para uma intensa concentração:

  • Jogos single-player narrativos
  • Produções de elevado orçamento
  • IPs com potencial transmédia (cinema, TV)

No processo, muitas das franquias que ajudaram a construir a marca PlayStation tornaram-se irrelevantes do ponto de vista empresarial, mesmo que continuem a ser culturalmente relevantes para os jogadores.

A Sony não matou estes jogos por incompetência, matou-os por uma questão de prioridade estratégica. A questão que permanece é se ao fazê-lo, também sacrificou parte da identidade criativa que diferenciava a PlayStation no passado.

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