Crimson Desert review - Dezenas de horas num caos maravilhoso e frustrante

 A paciência é a chave para a recompensa.

Caótico, frustrante, mas inegavelmente ambicioso. Crimson Desert testa constantemente a nossa paciência com problemas técnicos e uma narrativa confusa, antes de nos deixar apreciar o seu ambicioso sistema de combate, a exploração e os deslumbrantes visuais. Um jogo que exige tempo e muita paciência para quem conseguir superar a barreira da sua falta de polimento.



Se me pedissem para resumir as minhas dezenas de horas em Crimson Desert numa só frase, eu diria que este é um jogo que procuro desesperadamente gostar, mas que faz de tudo para testar a minha paciência. É um trabalho cheio de grandes contradições.

 

 Ao olhar para trás, para a viagem descomunal que fiz até agora, sinto-me feliz por o ter jogado. Apesar das suas evidentes falhas, podia muito bem tornar-se no meu Jogo do Ano. Mas é impossível ignorar o facto de que este gigante está constantemente a tropeçar nos seus próprios pés, misturando uma ambição descontrolada com decisões de design que roçam o absurdo.

Vou ser muito direto: Crimson Desert não é definitivamente um jogo para todos. E a explicação para isso começa na própria base da experiência e na forma como o jogo se apresenta ao jogador.

Um mundo vivo e deslumbrante

Começo por dar crédito a quem o merece: visualmente, Crimson Desert é uma grande vitória. Joguei a versão PC e posso dizer sem sombra de dúvida que é o jogo de mundo aberto mais espantoso e detalhado que experimentei desde Red Dead Redemption 2. É um trabalho enorme do estúdio. Há momentos de pura contemplação em que a direção artística, a iluminação e a fidelidade gráfica não são apenas muito boas, são realmente impressionantes, obrigando-te a parar só para olhar para a paisagem.

Mas a beleza do jogo não se esgota nos gráficos; ela estende-se à forma como o mundo funciona. Este universo parece mesmo vivo. As vilas, os acampamentos e as cidades respiram, com uma vida quotidiana normal que foi meticulosamente recriada. Cruzamo-nos frequentemente com pessoas conhecidas em lugares comuns e ouvimos personagens a ter conversas perfeitamente credíveis entre si. Os diálogos não são demasiado longos, duram apenas o tempo estritamente necessário e têm uma profundidade que se nota sem nunca se tornarem aborrecidos ou exaustivos.

O nível de detalhe na dinâmica deste mundo é tão grande que, a certa altura da minha aventura, fui assaltado sem dar por isso. Quando finalmente notei que faltava alguma coisa, tive de investigar a situação, encontrar o ladrão, prendê-lo com as minhas próprias mãos e entregá-lo às autoridades locais. É este tipo de imersão orgânica e inesperada que me faz querer voltar ao jogo.

O contraste entre o mundo vivo e a campanha confusa

É fascinante, e um pouco trágico, como um jogo pode ser tão bom a contar pequenas histórias e tão confuso a contar o seu enredo principal. Crimson Desert é o caso perfeito para ilustrar a diferença abismal entre “história” e “narrativa”.

A história sobre o meio envolvente, os antecedentes da nossa equipa e as missões secundárias são boas. Sentes que estás a conhecer pessoas reais com preocupações reais, e as suas histórias ficam contigo. Mas a narrativa principal é confusa e desarticulada. É um labirinto de tarefas desconectadas em que é extremamente difícil acompanhar o que te é pedido e o que está realmente a acontecer no mundo. A maior parte do tempo, não faço ideia do que estou a fazer. Pior ainda: a minha própria personagem executa ações, toma decisões e usa habilidades que eu nem sequer sei onde ou quando aprendeu. Cria-se uma estranha barreira entre o jogador e o protagonista.

A isto junta-se uma enorme falha no aspecto do role-play: há falta de escolha. Nos diálogos, não podemos influenciar o desenrolar das coisas que fazemos. Não há opções reais para mudar o curso dos acontecimentos à nossa maneira, o que nos deixa como meros espectadores de uma narrativa confusa, em vez de protagonistas de mudanças.

O caos do combate, armas e habilidades

Quando finalmente deixamos as conversas de lado e sacamos da espada, o jogo transforma-se. O combate é quase digno de um hack and slash, misturando o peso bruto das armas com uma série de movimentos de taekwondo. Cada golpe de espada tem um impacto visceral, com pequenos pontos de paragem que te fazem sentir o esmagar dos ossos do inimigo. Quer estejas a desferir golpes com o escudo, a encadear pontapés de artes marciais ou a cegar os adversários com o reflexo do sol na lâmina da tua espada antes de os cortares, há uma cadência muito satisfatória.

Mas o arsenal não se fica pelo metal. Crimson Desert lança-nos um número absurdo de habilidades com nomes extravagantes. Estou a falar de coisas como o Axiom Force, uma espécie de gancho mágico que funciona da mesma forma que a Ultra Hand de Zelda: Tears of the Kingdom, ou a Force Palm, que liberta explosões físicas devastadoras. A certa altura, até recebi uma capa de penas que me permite transformar literalmente numa criatura voadora. O mais fascinante de toda esta loucura mágica é a forma elegante como aprendes alguns destes truques: muitas das mecânicas de evasão ou pontapés específicos são aprendidos organicamente, simplesmente observando os inimigos a executá-los durante o combate, o que encoraja bastante a tua curiosidade tática.

A complexidade mecânica que nasce desta mistura atinge proporções quase bíblicas quando percebemos o nível de interação que a sandbox permite. No calor da batalha, posso agarrar e arremessar inimigos pelo ar, arrancar árvores ou objetos pesados do cenário para lhes atirar à cabeça, ou até transformar-me num remoinho de ataques giratórios. É um excesso de mecânicas estonteante. Por um lado, cria momentos de carnificina tão absurdamente divertidos que é impossível não começar a rir; por outro, contribui para a confusão de não sabermos onde é que a nossa personagem aprendeu a fazer metade daquelas coisas.

O muro das 30 horas e a estagnação da experiência

Mas há um estranho fenómeno que acontece nesta gigantesca viagem e que afeta o ritmo do jogo. Senti que Crimson Desert estava a ser exatamente o mesmo durante as últimas 30 horas seguidas. Apesar da vastidão do mapa e do número de mecanismos, a forma como entendemos e interagimos com o mundo não evolui muito depois do choque inicial.

Parece que a experiência simplesmente fica parada. É uma sensação no mínimo estranha: investes dezenas de horas, percorres áreas, avanças na campanha, mas o jogo não desenvolve em termos da sensação de descoberta ou do impacto que tens na experiência. O ciclo de jogo atinge um patamar e permanece estático. O deslumbramento das primeiras horas dá lugar a uma rotina de repetição que, combinada com aquela narrativa principal confusa que já disse, torna o peso das horas um pouco mais cansativo do que devia.


A complexidade desnecessária e o pesadelo do inventário


O jogo é gigantesco em conteúdo. Tão gigantesco que pode facilmente tornar-se assustador para um recém-chegado. Adoro o facto de podermos gerir o nosso próprio acampamento, enviar os membros da nossa equipa para cumprirem missões no nosso lugar, gerir os recursos e estabelecer rotas comerciais. Há tanta coisa para fazer, tantos sistemas interligados, que nem dá para enumerar tudo num só texto.

Mas o lado negativo é terrível: o jogo complica demasiado as coisas que podiam, e deviam, ser fáceis, acessíveis e simples. A falta de informação clara é chocante. Muitas mecânicas básicas não têm qualquer pista visual ou tutorial sobre o seu funcionamento, obrigando-nos a recorrer à comunidade online para aprender o mínimo. É um jogo de descoberta constante, sim, e por um lado isso é interessante, mas também gera enormes frustrações. A falta de lógica em certas mecânicas transforma tarefas que deveriam ser simples num verdadeiro puzzle sem qualquer necessidade.


E por falar em puzzles, a gestão do inventário é um sério problema constante. O espaço de que dispomos é escasso. Pior do que isso: há objetos de missões já concluídas, que já não são necessários para nada, mas que ainda estão na nossa posse, ocupando um espaço precioso (e limitado). Temos de nos desfazer deles manualmente, sempre com medo de deitar fora algo importante de uma missão que ainda estava aberta. E a decisão incompreensível de não ter uma arca para guardar objetos extra? É um erro enorme e até estranho, que prejudica a progressão do jogo, apesar da promessa de vão acrescentar esta funcionalidade no futuro.



A síndrome de "Acesso Antecipado": Controlos, Bosses e Puzzles


Mesmo com os seus indiscutíveis momentos de glória, há partes de Crimson Desert que lembram o Early Access. Fica a nítida sensação de que faltou muito mais tempo de desenvolvimento para polir e corrigir mecânicas que são fundamentais num jogo desta magnitude.


A principal consequência desta falta de polimento são os controlos. Há demasiado atraso em relação à resposta dos comandos. É um peso muito estranho e permanente, que torna o movimento desajeitado e a interação com o ambiente altamente problemática. Num jogo tão focado na exploração e combate com agilidade, este problema técnico agrava exponencialmente todas as outras frustrações.


A falta de destreza das mecânicas tem um reflexo terrível nas lutas contra bosses. Parecem completamente desfasadas do resto da experiência; a maioria dos grandes confrontos são mal construídos, desajeitados e não oferecem a satisfação épica que o sistema de combate promete no papel. Os puzzles espalhados pelo mundo sofrem do mesmo problema de design: alguns são apenas complicados e difíceis (o que é aceitável), mas outros são genuinamente estúpidos e sem lógica, atrasando artificialmente o teu progresso.


Veredito: A paciência é a chave para a recompensa


Crimson Desert é exatamente isto. É uma montanha-russa onde coisas simples e mal executadas acabam por estragar o muito de bom que o jogo tem. É um título que pede desesperadamente por mais polimento, por correções de bugs e por muitos ajustes de qualidade de vida.

Mas mesmo assim, aqui estou eu. Com dezenas de horas no relógio e com vontade de lá voltar assim que acabar de escrever este texto. A sua ambição é enorme, tão descontrolada, que é compreensível que não seja perfeito no primeiro dia. Se fores paciente, se aprenderes a lidar com a sua teimosia técnica e te permitires desfrutar desse mundo extraordinário, vai recompensar-te. Apesar de todo este caos, Crimson Desert tem um espírito inconfundível que te pode conquistar.


Postar um comentário

Nos deixe saber sua opinião...

Postagem Anterior Próxima Postagem