Um jogo PS3 com gráficos PS5 Pro.
Este inesperado híbrido entre Hitman e Uncharted resulta num divertido jogo de ação e espionagem cinematográfica. Com muito carisma e digno do legado incrível, 007: First Light é um empolgante primeiro passo numa nova série, onde o bom pesa muito mais do que o menos bom.
007: First Light, um dos jogos mais esperados do ano, está finalmente disponível. Este é um novo blockbuster da IO Interactive que deitou as mãos a uma propriedade de sonho, mal acarinhada no gaming, até agora. Ao apostar na sua própria versão de James Bond, através de um jogo de origem no qual vais descobrir como conquistou o título de 007, a IOI conseguiu uma perspectiva fresca e energética do personagem.
Esta é uma interpretação, executada através de um simples, mas eficaz jogo cinematográfico de ação e espionagem, capaz de deixar diferentes pessoas convencidas com o trabalho da produtora. Sejam os fãs de Bond, os fãs de Hitman ou os fãs de jogos como Uncharted, existe aqui algo para eles, através de um híbrido cujos bons momentos vão marcar muito mais do que os menos bons.
Outra forma de morrer
Como cantado por Chris Cornell: “tu sabes o meu nome”, mas ainda não conheces a origem deste adorado espião britânico. James Bond é apresentado em First Light como um herói improvável, que durante uma missão na Islândia acaba se envolver com o MI6. O seu carismático desrespeito pela autoridade, fascínio pelas mulheres e talento para arriscar a vida significa que está sempre disposto a encontrar outra forma de morrer.
No entanto, a verdade é que ele não tem tempo para morrer, por isso tens de o ajudar a ressuscitar o programa 00. Como o mundo não é suficiente, isto significa embarcar numa jornada por vários locais e ajudá-lo a encontrar outro dia para morrer, mesmo que o céu esteja a cair. Para a IOI, foi extremamente importante mostrar a origem de forma detalhada, o que inclui mostrar como adquiriu a licença para matar.
Como história de origem, 007: First Light mostra como Bond se cruza com o MI6, como conhece Moneypenny, M, Q, e outros personagens criados pela IOI. O elenco é carismático, especialmente as várias Bond Girls (algumas delas surgem em cenas sensuais), servindo de forte suporte para um minucioso explorar das origens do agente. Para dar tempo para as suas principais conspirações e reviravoltas gerarem impacto no jogador, a IOI mostra o treino de Bond, a primeira vez que vai para o campo numa missão e faz-te criar um laço com o agente. É como se tivesses a ver um espetacular filme de Bond, mas és tu quem o controle.
Existem missões em belos castelos europeus, paraíso de piratas em África, salões de gala em Londres, num resort de luxo no Vietname e outros locais dignos de um périplo global com Bond.
Confesso que a história é das coisas que mais gosto em 007: First Light. Mesmo sentindo que o vilão principal precisava de mais tempo para brilhar como merecia, quando está em cena é eficaz. Além disso, as reviravoltas, impacto de algumas surpresas e o desvendar de algumas verdades conquistam. Apesar dos vários acontecimentos, a sensação de surpresa está sempre à espreita e ao bom estilo de Bond, nada está realmente explicado até ao final, e existe sempre algo arrojado prestes a acontecer.
Uncharted: Hitman's Fortune
Após especializar-se em jogos de infiltração e furtividade com grande liberdade para o jogar interpretar como cumprir os objetivos, a IOI reduziu ligeiramente as possibilidades de cumprir as missões para guiar mais o jogador. Isto não é algo negativo, estou apenas a descrever o que senti, uma vez que um fã de Hitman poderá ter a ideia errada do que o espera aqui. Além de adaptar o lado Hitman de 007: First Light, a IOI inspirou-se em vários jogos de ação cinematográfica para a outra faceta deste jogo, incluindo referências como Uncharted.
Pessoalmente, acredito que é uma aposta mais do que ganha, uma vez que foi nestes segmentos que mais diversão senti. Tudo o que a IOI fez foi para transmitir uma maior sensação de sermos Bond, com a introdução do Q-Watch e uma precisão cinematográfica que torna cada nível em algo diferenciado. O objetivo foi criar enorme dinamismo na experiência para sentirmos que, apesar de segmentos familiares e dentro do mesmo estilo, 007: First Light permanece fresco e carismático.
Confesso que foi no lado Uncharted de 007: First Light que mais diversão senti, quando estamos a correr contra o tempo, a controlar James Bond para vencer em situações extremamente perigosas, com reduzida probabilidade de sucesso. Mesmo que a IA e comportamento dos inimigos comprometa o desfrutar de muitas cenas (não sabes se tens sucesso porque jogas bem ou porque o jogo foi estupidificado para que não percas e te sintas frustrado), na maioria do tempo, a IOI é eficaz na ação cinematográfica empolgante que dá vontade de continuar a jogar.
Os controles são simples, seja para disparar ou para usar o Q-Watch de Bond (permite incomodar ou atacar os inimigos, mas também para interagir com partes dos cenários para criar explosões, se tiver eletricidade ou químico suficientes), o que incentiva analisar os cenários para tentar tirar proveito deles e evitar confronto. Seja na ação ou investigação, existem inúmeras interações com inúmeros objetos e raramente vais sentir que os controlos incomodam.
O deslocamento de Bond e algumas ações como recarregar as armas podem exibir problemas de animação, mas é um jogo que cumpre com o que pretende. Existem cenas de perseguição com carros e barcos, sequências explosivas com “brinquedos” do Q que não vou referir para preservar a surpresa, e uma quantidade incrível de boas referências às longas décadas de Bond no cinema. Além disso, existe atenção ao detalhe, como disparar para uma mão e o inimigo deixa cair a arma, por exemplo, mas também podes acertar na mão para deixar cair uma granada.
O melhor deste híbrido entre Uncharted e Hitman é a constante tentativa da IOI para manter a experiência inesperada e fresca, como a cena na discoteca bem exemplifica. A maioria das produtoras provavelmente nem sequer pensaria nela, mas este é o espaço natural da produtora de Hitman. A IOI precisa de melhorar no “lado Uncharted” de Bond, mas no geral, é um primeiro esforço digno de bons elogios. O uso do Q-Watch contribui imenso para diferenciar a jogabilidade pois sem ele parte do charme fica perdido.
A IA, lógica e design de confrontos
007: First Light é um híbrido entre Uncharted e Hitman que facilmente conquista os fãs de ação singleplayer, mas também dividirá opiniões com a mesma facilidade: uns vão sentir que devia ser mais Uncharted e outros vão sentir que devia ser mais Hitman. Além de sentir que os momentos Hitman demasiado simplificados levantam ainda mais questões sobre a IA, especialmente as suas reações ao que fazes com o Q-Watch, também fica a ideia que esse design aplicado às áreas de confrontos é prejudicial.
Se já leste algo do que escrevi sobre a IA e o design de confrontos ou viste um dos vídeos, sabes que é o elemento do qual menos gostei no jogo ao ponto de puxar a experiência para baixo. Num jogo destes, de espetacular ação cinematográfica, precisas da ilusão que és realmente maior do que o momento, que os teus feitos são válidos e consegues ser um atirador altamente eficaz ou que és extremamente apto na furtividade. 007: First Light não te dá esse mérito em muitas cenas, mas faz-te sentir que és um espetáculo.
Jogar 007: First Light é jogar uma experiência de ação explosiva que te faz lembrar Uncharted, intercalada com pequenas áreas abertas vindas diretamente de Hitman. Em nenhuma das fases a IA é plenamente competente para te fazer respeitar a lógica, o que se torna duplamente aborrecido: quando estás aos tiros e a explodir tudo, não queres sentir que é porque a IA está propositadamente estupidificada para levar com os teus tiros incrivelmente certeiros, enquanto nas cenas de investigação e infiltração não queres ver os NPCs a portarem-se de forma patética só para levares a tua avante.
Como fã de Hitman e Uncharted, sinto que 007: First Light fica próximo de ambos, sem jamais alcançar os seus patamares, muito por culpa da IA e dos comportamentos dos NPCs. Nas cenas de ação, os inimigos exibem dificuldade em ver-te mesmo quando estás à sua frente (jogar em Hard ajuda nisto), mas deixam de te perseguir se te afastares alguns metros e nem disparam sobre ti quando estás a dar socos num rufia (jogar em Hard não ajuda nestas duas). Nas cenas de infiltração e investigação, as coisas ficam frequentemente estranhas.
Estas sequências, como a do Hotel que foi exibida numa State of Play especial, são exemplos disso. Tens inúmeros locais para explorar, mas ao contrário de Hitman, é tudo muito mais conduzido pelo jogo, talvez para evitar a frustração entre os que vieram para 007: First Light incentivados pelo lado Uncharted. A IOI claramente fez o que conseguia para tentar criar uma fantasia credível de espionagem com base no que fez em Hitman, mas a ausência de reações ou as reações a muitas das intervenções de Bond sugerem que a experiência Hitman foi estupidificada.
Fenomenal, Graficamente fenomenal
Ainda me lembro da primeira vez que joguei Hitman 3 numa Xbox Series X em janeiro de 2021: foi espetacular e um dos primeiros momentos “nova geração”. A IOI claramente sabe fazer gráficos fantásticos, de tom cinematográfico que glorificam os propósitos da jogabilidade: divertir o jogador e transportá-lo para um mundo digital no qual a sua mente se distrai da vida real. No entanto, jamais imaginaria o patamar que alcançou com 007: First Light.
A correr numa PS5 Pro, 007: First Light é graficamente um jogo para aplaudir de pé, no qual a IOI faz o máximo que consegue para encher as cenas de detalhe, banhadas por uma iluminação credível e impressionante. Os personagens exibem o mesmo nível elevado de detalhe e mesmo que algumas cenas sejam mais simples ou que o nível de detalhe seja gradualmente reduzido quanto mais afastado do centro da imagem está, é impossível não ficar impressionado.
O motor de Hitman 3 foi afinado para as cenas explosivas, mas subiu de patamar para permitir cenas repletas de NPCs ainda mais detalhadas e com melhor iluminação. O trabalho da IOI é bom e permite desfrutar de um forte tom cinematográfico. Além disso, a cereja no topo do bolo, não senti qualquer queda no desempenho ou atraso nos controles.
Desabafo Final
Este esforço da IOI é o que habitualmente é descrito como "já me diverti mais com um jogo de 7 do que com jogos de 10", o tipo de jogo que nos faz questionar o nosso atual sistema de classificação. As 3 estrelas podem ser traduzidas para 6, o que não considero de forma alguma justo, por isso prefiro optar pela opção superior, mais justa para o primeiro esforço da produtora numa nova franquia.

