Faltou aquele jogo que nem sabíamos que queríamos até a vermos no ecrã.
O State of Play de junho já acabou, mas o que fica é uma sensação preocupante de vazio. Já lá vão os dias em que um evento da Sony nos deixava colados, com o coração a bater mais rápido, de boca aberta e com uma enorme vontade de correr à loja mais próxima para comprar a consola da Sony. Lembro-me de apresentações em que a PlayStation lançava verdadeiras bombas aos jogadores, propriedades intelectuais totalmente novas que iam marcar gerações ou anúncios que ninguém achava que fossem possíveis.
Mas hoje percebemos que o medo que vinha a crescer na comunidade PlaySttaion foi confirmado: a marca parece ter perdido o seu toque especial, substituindo a criatividade e a vontade de correr riscos por uma fórmula empresarial e previsível.
A "fábrica Marvel" da Insomniac: Marvel's Wolverine
O destaque da noite foi, sem surpresa, Marvel's Wolverine (com estreia marcada para 15 de setembro de 2026). Não dá para ignorar que a amostra do gameplay foi impressionante, tanto a nível técnico como visual. Vimos o Logan no seu pior, ou melhor se preferires: garras de adamantium a rasgar inimigos, mutilações, litros de sangue, uma perseguição de motos alucinante em busca de mutantes raptados e até uma participação especial da Jean Grey.
Mas qual é o problema nisto tudo? É que ao olhar para além dos gráficos impressionantes, o que vimos parece um clone estrutural dos sucessos recentes do estúdio. Marvel's Wolverine parece simplesmente pegar em todos os elementos principais de Marvel's Spider-Man e trocar as teias por garras. O ritmo do combate, as zonas de combate, a forma como a ação flui... tudo parece demasiado conhecido. A Insomniac Games tornou-se a "fábrica Marvel" da Sony e, embora os jogos sejam extremamente bem polidos, falta-lhes aquela faísca de originalidade que esperávamos ver numa nova geração.
God of War Laufey: Um clone de luxo onde mandaram Kratos à Fava
O outro peso pesado encarregado de encerrar o evento foi God of War Laufey, que teve uns impressionantes 20 minutos de gameplay. E aqui a desilusão vem de uma forma diferente. O Santa Monica Studio resolveu deixar o icónico Kratos de fora (basicamente colocando o Deus da Guerra de lado na sua própria saga) e colocou-nos na pele da sua falecida esposa, Faye, para explorarmos as suas aventuras na vida depois da morte.
O vídeo mostrou um combate mais acrobático e ágil, o regresso do conhecido sistema de defesa e o uso de uma espada mágica chamada Rue. Fomos até apresentados a novos e estranhos elementos de fantasia, como um cubo gelatinoso falante chamado Frank e um cão gigante voador, que quase parecem ter saído diretamente de um filme de super-heróis, em vez da mitologia nórdica sombria a que estávamos habituados.
Os gráficos são absolutamente impressionantes, mas é impossível não sentir que isto é apenas mais uma repetição de alta qualidade. A base de God of War (2018) e Ragnarok foi explorada até à exaustão. Na essência, trata-se de um spin-off que reutiliza o mesmo motor de jogo, a mesma câmara por cima do ombro e o mesmo ciclo de jogabilidade, alterando apenas a aparência da personagem principal. É este o grande argumento de venda para convencer quem ainda não comprou uma PS5?
Um evento morno num mar de sequelas e remakes
Se os dois gigantes do evento jogaram pelo seguro, o resto da apresentação só veio reforçar essa falta de ousadia. A Sony encheu o evento de sequelas e remakes, recusando-se a correr riscos com novos universos:
Fomos presenteados com o anúncio de Until Dawn 2 (para 2027), que promete mais do mesmo terror adolescente narrativo.
Vimos a história de Tomb Raider: Legacy of Atlantis, uma saga já mais do que consagrada, com lançamento para 12 de fevereiro de 2027.
A nostalgia foi espremida com o anúncio do remake Rayman Legends Retold (1 de outubro de 2026).
Tivemos confirmações de grandes lançamentos, mas altamente previsíveis, como Silent Hill Townfall e Control Resonant para o final de setembro de 2026.
E claro, os live-services obrigatórios para Marvel Tokon: Fighting Souls, onde foi revelado que a equipa Knights of Doom (Doctor Doom, Magneto, Green Goblin e Carnage) vai chegar no dia 6 de agosto de 2026.
Serão os gráficos suficientes?
A Sony trouxe um State of Play visualmente deslumbrante, extremamente bem acabado e repleto de grandes nomes. Mas foi um evento que ficou perigosamente aquém em termos de coragem. Faltou aquele jogo blockbuster inesperado, aquela nova propriedade intelectual que nem sabíamos que queríamos até a vermos no ecrã.
A PlayStation atual parece ter caído numa rotina de sequencias previsíveis e na cópia constante das fórmulas que lhes valeram prémios no passado. Mas se os estúdios internos como a Insomniac e a Santa Monica, com orçamentos quase ilimitados, não tentarem ultrapassar as suas próprias barreiras, quem o fará? Os jogadores merecem muito mais do que o “bom, bonito e familiar” merecem sentir novamente aquela magia criativa e arrebatadora que só a PlayStation costumava ter a coragem de nos entregar.
Achas que esta falta de originalidade se deve aos orçamentos gigantescos e ao receio da Sony de perder dinheiro com novas ideias, ou será um sinal de pura preguiça criativa dos estúdios?
