O melhor dos dois lados da série.
Requiem é mais uma pulsante experiência Resident Evil que transmite enorme gosto por acompanhar esta série. As duas faces de Resident Evil são exploradas com empolgante eficácia para alcançar um jogo muito divertido que dá gosto de jogar várias vezes.
Resident Evil Requiem é absolutamente espetacular ao ponto de se tornar num dos meus jogos favoritos da série. Foi construído com o mesmo desejo de criar uma atmosfera inquietante, para suscitar constante receio do que te espera no próximo corredor e o design coloca o desafio em sobreviver com recursos limitados. Como bem sabemos, essa é apenas uma parte da personalidade da franquia, manifestada através de Grace, pois quando transita para Leon, tens a mesma ação explosiva e até exagerada do remake de Resident Evil 4.
É uma continuação do método que fez dos mais recentes jogos enormes sucessos, mas onde sinto que a Capcom alcançou um resultado capaz de merecer ainda mais elogios é na forma como executa este design. A Capcom respeita os dois lados de Resident Evil com um design capaz de te fazer pensar nos primeiros dois jogos, onde também tens imensos segmentos de ação, mas ao contrário de Resident Evil 6, Requiem não é um jogo tonto nem pateta.
Pelo contrário, por mais familiar que Requiem seja para quem tem acompanhado a série, a Capcom consegue bons momentos, bom enredo, e até consegue mexer com os acontecimentos dos jogos originais. Requiem vai mesmo à origem da série para traçar o seu futuro. Isso é feito na narrativa e também no design em si.
Enredo que convence
Não esperava ficar tão cativado com o enredo de Requiem, mas dei por mim ansioso por descobrir o que se estava realmente a passar, à procura de saber tudo o que o jogo tinha para me contar sobre Grace. O novo Resident Evil coloca-te a jogar com Grace Ascroft, uma órfã cujo passado está intimamente ligado aos eventos trágicos de Raccoon City. Em adulta, Grace é uma jovem agente do FBI chamada ao terreno para investigar uma série de crimes.
Sem o imaginar, toda a série de crimes são apenas uma elaborada armadilha para a levar de volta ao local do momento mais trágico da sua vida. É precisamente naquele local onde Requiem começa. Leon S. Kennedy, o famoso protagonista de vários jogos da série, também está a investigar o mesmo caso e acaba por dar de caras com Grace quando ela mais precisa. A partir deste momento, os seus percursos vão-se cruzar diversas vezes e vão ajudar-se.
Requiem começa de uma forma misteriosa, mas sempre a dar pistas que tudo o que está a acontecer está relacionado com o passado, com os eventos de Raccoon City nos primeiros jogos. Pelo outro lado, também te dá constantes pistas de uma iminente tragédia para os principais protagonistas, especialmente Leon. Desde os primeiros instantes, fica a sugestão que Leon está a percorrer um caminho fatídico, a pagar as consequências da vida que viveu desde aquela noite dos mortos vivos.
Grace e a angústia psicológica
A narrativa de Requiem serve para atar pontas soltas do passado de Resident Evil e te preparar para uma nova era na série, algo que é feito através de dois protagonistas diferentes, que representam as duas faces da série. A Capcom leva esse conceito tão a sério que não o faz apenas com as personagens, o próprio design do jogo está desenhado para destacar essas facetas.
O tempo que passas a jogar com Grace, a esmagadora maioria da primeira metade do jogo, é uma experiência similar ao que tens com Ethan nos dois jogos anteriores. Grace é uma medricas, sem experiência no terreno, desajeitada e pronta a entrar em pânico com qualquer ruído. A narrativa está construída para ela evoluir como pessoa, o que se nota, mas ainda assim, ela representa o elemento de terror e sobrevivência. Deves jogar com a perspetiva na primeira pessoa para maior intensidade e pânico.
Na primeira metade do jogo, a Capcom leva-te para um misterioso hospital onde vais ajudar Grace a escapar. Poucas balas, alguns itens de cura, constante necessidade de avaliar se vale a pena usar balas neste zombie ou tentar correr e arriscar ter de usar ervas para curar, ruídos inquietantes, passar despercebido por criaturas bizarras, e navegar pelas áreas disponíveis para desbloquear o acesso a outras áreas. É isto o que te espera com Grace.
Requiem não é particularmente elaborado nos puzzles, mas o design do hospital relembra o que foi feito nos primeiros dois jogos da série. É um labirinto de várias camadas cujos corredores vais percorrer diversas vezes, sempre a testar a tua capacidade de navegação e memória. O mapa e o sistema de pistas estão bem desenhados e ajudam, mas ainda assim, os zombies mudam de posição quando consegues obter um item importante, por isso o pânico é constante.
A primeira metade do jogo com Grace é das minhas partes favoritas de Requiem. Mesmo sem a carga alcançar a intensidade de RE7, é um jogo inquietante que vai testar os teus nervos. Existem sequências muito bem conseguidas, com puzzles relacionados com os cenários e as capacidades de navegação, sem esquecer a constante necessidade de gerir recursos. Podes nem dar por ela, mas enquanto estás com Grace, estás em constante estado de alerta, a temer tudo o que não consegues ver, especialmente porque a IA dos zombies está desenhada para te perseguir ao longo de várias salas. Sem esquecer que alguns evoluem para uma versão mais ameaçadora ou mudam de posição.
O quão desajeitada, lenta e frágil Grace é só vais sentir a sério quando passares para Leon, uma autêntica força da natureza cujo arsenal é mais poderoso. O transitar para ação quase total (pensa em RE4) transforma a experiência Requiem e quando voltas a Grace vais sentir ainda mais as suas limitações. Quando estás com Leon, o medo desaparece.
Leon é a ação de RE4 remake...turbinada
Em Requiem, Leon é um agente especial veterano, que persegue uma resolução que parece impossível. Atormentado pelos eventos de Racoon City, Leon representa o outro lado de Resident Evil, a ação espetacular. Existem set pieces fantásticas, níveis desenhados para ação desenfreada que vão deixar os fãs empolgados com a cinematografia e os exageros. A dada altura, parece que a Capcom goza consigo mesma e RE6, mas esta ação está executada de forma empolgante.
Na primeira metade de Requiem jogas poucos minutos com Leon, o protagonismo vai quase todo para Grace, mas na segunda metade do jogo, é o veterano e a ação que brilham. Como referido, não é apenas o tom do jogo que muda, o design também. Se a primeira parte com Grace relembra RE1 e RE7 com gestão de recursos, atmosfera tensa, design labiríntico e constante sensação de perigo, a segunda metade do jogo adota uma espécie de pequeno mundo semi-aberto, com um tom Mercenários.
Com Leon, podes matar zombies facilmente com o maior arsenal (até podes usar o machado dele para golpes finais ao invés do empurrão desajeitado de Grace) e ganhas pontos por cada zombie abatido. Esses pontos são trocados em postos de controlo da BSAA por armas mais poderosas, melhorias para as armas, armadura e restauro de armadura. Também podes comprar alguma munição e item de cura.
Este segmento no pequeno semi-mundo aberto é o mais exigente para as capacidades da Nintendo Switch 2, mas é a jogabilidade que realmente conquista interesse. O mais próximo que tivemos disto foi Resident Evil 5, que misturou filosofias de Mercenários com a campanha principal. Nesta área, tens de encontrar vários itens espalhados por uma parte da cidade, o que te obriga a explorar vários locais para encontrar uma forma de chegar a todos os itens necessários. Não ostenta o mesmo fabuloso design labiríntico da primeira metade do jogo, mas enquanto experiência Resident Evil de ação, é divertido. Também tens vários segredos escondidos, armas extra e imensos momentos de espetacular ação que te vão fazer pensar que os grandes blockbusters gaming ainda estão vivos.
O único real problema
O único problema de Requiem, aquele que considero ser o real problema que vai afectar a conversa em torno do jogo, capaz de ombrear com os seus maiores méritos, é a duração do jogo. É possível terminar o jogo em 8 horas, mesmo na primeira tentativa, se jogares na dificuldade normal. É altamente recomendado para os veteranos jogar com a dificuldade normal clássica.
Com a dificuldade clássica, existe limite para gravar o jogo e a dificuldade está ligeiramente acima de "Normal (Moderno), por isso esta é a opção recomendada para prolongar o jogo de uma forma que podemos considerar natural. Mesmo com o bom sistema de checkpoints, limitar os saves e subir ligeiramente a dificuldade pode resultar numa experiência mais próxima das 10 horas ou até mais.
A versão Nintendo Switch 2
No momento da escrita da review, ainda não tive a oportunidade de jogar a versão PlayStation 5, PC ou Xbox Series de Resident Evil Requiem, apenas o joguei na Nintendo Switch 2. É fácil perceber onde a Capcom efetuou cortes e aceitou compromissos para colocar Requiem na mais recente console da Nintendo, mas ainda assim a principal sensação foi de surpresa ao ver o jogo a correr na Nintendo Switch 2, especialmente em modo portátil.
O cabelo das personagens, a iluminação, a qualidade de algumas texturas (especialmente na área mais aberta), e ajustes para reduzir detalhe visual são perceptíveis, tal como as ocasionais quedas no desempenho (algumas muito fortes, mas essas são raras). No geral, é um jogo que surpreende e convence. A sequência inicial na cidade e todo o tempo no hospital são grandes destaques, com a qualidade gráfica a exibir bom detalhe nesta console.
Conclusão
Jogar Resident Evil Requiem foi absolutamente espetacular. Após os créditos, voltei a começar do início pois não queria sair daquela experiência de tão empolgante que é. É uma continuação do que viste em Village, mas mais próximo de cada um dos eixos. A tensão, gestão de recursos e terror com Grace está ligeiramente mais próxima do 7, com um design labirínto como em RE1 e RE2, enquanto a ação com Leon vai ainda mais longe do que viste em Village para se aproximar do remake de Resident Evil 4. É o melhor dois mundos, que me deixou totalmente obcecado para o terminar.
